O que é ATLS e qual a sua função dentro do trauma

O que é ATLS e qual a sua função dentro do trauma?

O ATLS, também conhecido como Advanced Life Trauma Support, é um tema bastante recorrente nas provas de residência em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. Além disso, é de grande importância que o cirurgião bucomaxilofacial, e as outras áreas que atuam dentro do trauma, conheçam a fundo sobre o Suporte de Vida e sua função.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o trauma é um dos principais fatores de óbito ao redor do mundo, afetando aproximadamente 5,3 milhões de indivíduos por ano. Os principais fatores associados ao trauma são os acidentes automobilísticos, incluindo com carro e motocicleta, agressões físicas, com armas de fogo ou brancas e quedas da própria altura.

O comportamento também é outro fator que influencia diretamente na alta incidência da taxa de trauma. Especialmente no trânsito, representado pela direção em alta velocidade, consumo de álcool ou a ausência do capacete na direção das motocicletas. Tudo isso torna o trauma uma questão de saúde pública, que merece atenção pela alta taxa de mortalidade e morbidade associadas.

Com isso, saber a definição de ATLS e como utilizar cada etapa desse suporte é fundamental para atuar na redução desses índices e estabilizar o estado de saúde do paciente, sem agravar ele. Confira tudo sobre esse importante conceito e suas etapas!

O que é o ATLS?

O ATLS é uma sigla para Advanced Trauma Life Support, na qual sua tradução literal representa Suporte Avançado de Vida no Trauma, é definido como um protocolo utilizado pelos profissionais da saúde que atuam nesse setor durante o atendimento do paciente politraumatizado. Ele pode ser aplicado tanto no cenário hospitalar como no pré-hospitalar, ainda na ambulância.

O que é o ATLS
Fonte/Reprodução: original

O principal objetivo do ATLS é atuar na redução da morbidade e da mortalidade global ao introduzir métodos de estabilizar o paciente que foi vítima de trauma.

Ou seja, é possível avaliar o estado geral de saúde do paciente, verificar seu estado neurológico, cuidar de suas vias aéreas superiores, garantir que suas funções vitais estejam funcionais, dentre outras abordagens.

Urgência e emergência: Qual a diferença?

Dentro do cenário hospitalar e da própria ATLS, os conceitos de urgência e emergência são amplamente utilizados. No entanto, é comum que os profissionais se confundam diante de seus significados.

Emergência significa situações ou procedimentos sem nenhum risco de morte, mesmo que tenha prioridade para atendimento. Enquanto isso, urgência são procedimentos que devem ser realizados imediatamente, pois há grande risco de óbito do paciente.

Reconhecer essa diferença é essencial, uma vez que os termos podem ser vistos em diversas questões nas provas da residência.

Para que serve o ATLS?

O objetivo principal do ATLS é garantir que o paciente fique estável tanto no atendimento pré-hospitalar como, também, no setor de trauma do hospital. Por meio de etapas que visam verificar as vias aéreas superiores e a função cardiorrespiratória do paciente, assim como, sua função neurológica, é possível aumentar as chances do paciente de não vir a óbito.

Com o conhecimento adequado acerca do protocolo ATLS, assim como o famoso “ABCDE” da vida, é possível reduzir o alto índice de mortalidade e de morbidade dos traumas. Além disso, sua aplicação na hora do atendimento pré-hospitalar é fundamental para permitir a viabilidade e a estabilização do paciente.

Porque, o momento do resgate e do transporte do paciente na ambulância é conhecido como a “Golden Hour”. Traduzido para hora dourada, ela é definida como a primeira hora passada logo após o evento que ocasionou o trauma, sendo o tempo crucial para determinar a sobrevida do paciente.

Ou seja, é nessa primeira hora que o paciente apresenta maior risco de ir a óbito, sendo inclusive elevado a 400 vezes mais do que nos momentos após essa hora. Estabilizar o paciente durante esse tempo é fundamental para evitar que isso ocorra. Diante disso, observa-se três lições de essenciais dentro do ATLS, sendo elas:

  • Tratar primeiramente a maior ameaça à vida do paciente;
  • A ausência de um diagnóstico definitivo não deverá impedir a realização do protocolo;
  • Não é necessário ter uma história médica prévia para iniciar o protocolo.

Seguindo esses três passos durante a avaliação do paciente politraumatizado, é possível iniciar o seu tratamento e seguir o protocolo, por meio do “ABCDE”’, para estabilização do paciente e realização dos eventuais tratamentos necessários.

História do ATLS

A história por trás do surgimento do ATLS é bem curiosa. O protocolo de suporte avançado foi criado pelo Dr. James K. Styner, um cirurgião ortopedista que em fevereiro de 1976, durante um voo com sua família para o estado de Nebraska, sofreu um grave acidente enquanto pilotava o avião. Na queda, sua esposa faleceu instantaneamente enquanto seus três filhos sofreram ferimentos graves.

Enquanto isso, ele e seu outro filho sofreram apenas ferimentos leves e, quando socorridos e levados para o hospital, receberam tratamentos inadequados devido à falta de treinamento dos médicos para lidar com tal situação. O evento ficou na cabeça de James K. Styner, que logo desenvolveu um protocolo para otimizar o atendimento aos pacientes politraumatizados.

Logo, em 1978, nasceu em Nebraska o que seria o esqueleto do Suporte Avançado de Vida no Trauma, conhecido popularmente como ATLS. Essa abordagem aumentava as chances de sobrevida do paciente que era vítima de trauma. Dois anos depois, em 1980, o American College of Surgeons aprovou e introduziu o protocolo ao redor do mundo.

Atualmente, o ATLS é o pilar para qualquer profissional da saúde que atua em centros de trauma, sendo a base para estabilizar o paciente. Com isso, seu conhecimento é fundamental — seja para a prova da residência ou para sua vida profissional.

ATLS e o “ABCDE” da Vida

Avaliar o paciente politraumatizado, estabilizá-lo e lidar com as lesões que potencializam o risco de morte do paciente são os primeiros passos dentro de qualquer cenário de trauma.

ATLS e o “ABCDE” da Vida
Fonte/Reprodução: original

O ATLS é o protocolo indicado para isso, onde nos apresenta o “ABCDE” da vida, uma sequência que segue as principais vias do corpo humano. Cada letra representa uma etapa, sendo elas:

  • Airways;
  • Breathing Control;
  • Circulation;
  • Disability Neurological Examination;
  • Exposure.

Seguindo a ordem do protocolo, é possível estabilizar e identificar todas as lesões que ameaçam a vida do paciente após o trauma. Nessa ordem, as etapas do protocolo são:

Airways

Na primeira etapa do protocolo, verifica-se as vias aéreas superiores e se elas estão ou não obstruídas, seja por corpo estranho ou por deslocamento de fragmentos ósseos de fraturas em face. Para garantir via aérea, podem ser realizados cricotireotomia, traqueostomia, tração mandibular ou lingual, uso de colar cervical e dentre outros.

Breathing Control

O controle respiratório é avaliado através da movimentação do tórax, procurando diferenças em seu movimento e se há ou não corpos estranhos prejudicando a respiração. Caso haja, é feita a respiração mecânica manual utilizando uma máscara conhecida como Ambu.

Circulation

Na circulação, observa-se se há ou não a presença de hemorragia ao longo do corpo do indivíduo. Com isso, é avaliado a pressão arterial, o grau de consciência, sangramentos aparentes e coloração da pele, indicando a homeostasia mediante procedimentos na sala do trauma e evitando que o paciente vá a óbito por meio de choque hemorrágico.

Disability Neurological Examination

Aqui, avalia-se o grau de consciência do paciente vítima de politrauma por meio de exames primários com resposta a estímulos que podem ser dolorosos ou verbais. Também é feito um teste conhecido como Escala de Coma de Glasgow, verificando a atividade pupilar e a presença ou ausência de lesões motoras, ou sensoriais.

Exposure

Por fim, a exposição é feita com a remoção das vestes do paciente para avaliar se houve ou não outras lesões no corpo que não estão evidentes. Também é feito o aquecimento do paciente por meio de cobertores térmicos para evitar hipotermia.

Escala de Glasgow

A Escala de Coma de Glasgow, ou ECG, é um método para avaliar o nível de consciência dos pacientes vítimas de politrauma. Com isso, serve como ferramenta de auxílio para prevenir sequelas e auxiliar no prognóstico do trauma. Quatro critérios são avaliados para chegar ao grau de consciência do paciente:

  • Abertura ocular;
  • Respostas verbais;
  • Respostas motoras;
  • Reatividade pupilar.

Cada um deles apresenta uma pontuação específica, descrita em tabela, que determina a gravidade do paciente através do seu somatório. Sua pontuação total varia de 1 a 15, onde de 13 a 15 é uma lesão leve, entre 9 e 12 uma moderada e 3 a 8 é considerada uma lesão grave.

O ATLS faz parte da rotina de diversos profissionais que realizam atendimentos no trauma, incluindo o cirurgião bucomaxilofacial. O conhecimento acerca do protocolo é necessário, não só no dia a dia da profissão, como também é parte do conteúdo teórico cobrado nas mais diversas provas de residência espalhadas pelo país.